
Espanha, 2010
Não , não estou interessada. Eu queria mesmo era passar para além do azul. Percebe?
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Sim… compreendo, mas bem vê, é que eu já vivo em sobressalto. São sempre coisas difíceis, angústias, vozes caídas, às vezes queixumes. Depois é a impotência. O silêncio impossível e instável. Quando quebrado explode em mil doçuras ou mil facas. Nunca se sabe.
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Já lhe disse, temo esse som. Acorda a fera que vou amansando à custa de sonhos. Do outro lado reclamam-me palavras aplainadas, adequadas. É embaraçoso, compreende…eu aflita a tentar corresponder, a tentar a perfeição das rosas e ser tudo tão diferente: a querer passar para o outro lado. Ser Barco.
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Pois… continua a não querer entender e isso desconcerta-me. Vou ser mais clara. É o medo que tenho que me impede de atender. O desconhecido voraz que passou a fazer parte da minha vida. Esse novo nome que retirou todos os nomes às coisas.
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Sim, sim são de grande utilidade, mas não percebe é que é isso mesmo que procuro evitar. A Utilidade. De resto, bem vistas as coisas tudo é de uma grande inutilidade e saber isso basta-me como a Grande Ciência de Todas as Coisas. Não quero campainhas a soarem-me aos ouvidos, já disse.
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Compreendo que apenas faz o seu papel, mas eu… eu não quero um telefone sem custos de instalação e chamadas grátis para todas as redes.
Todos os amantes podem invocar os direitos e as liberdades em todas as circunstâncias.
O que torna tão semelhantes o amor e o ódio genuínos é essa inefável proximidade entre dois seres humanos...ao ponto de não sabermos onde termina uma pessoa e começa a outra.
Todos os afectos verdadeiros nascem livres e iguais ...
O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
Sophia de Mello Breyner Andresen, As amoras (*) ou como se inicia uma história de amor
Poetry...when silence is louder than a bomb!